História submersa

Quando pensamos em naufrágio, logo vem à mente a história do Titanic, o grandioso navio de passageiros que afundou em 1912, depois de se chocar contra um iceberg e acarretou a morte de 1.517 tripulantes.

O que nem todo mundo conhece são os diversos naufrágios de nossa Região Norte Fluminense, que entraram para história. O transporte marítimo sempre foi considerado moderno, suscitando a ideia de progresso. No entanto, assim como o Titanic, muitos navios, como caravelas, navios a vapor, escunas e fragatas (navios de guerra) sofreram acidentes, submergindo para o fundo do mar, sendo mais especificamente, na nossa costa litorânea.

Dentre os grandes naufrágios que tivemos, os que entraram para a história, deixando registros por meio de documentos, livros e pela oralidade passada através das gerações, consta a grande fragata brasileira Paula Mariana, em 1826, em frente à Ilha dos Franceses, ao largo de Macaé. A fragata inglesa Thetis, em 1828 e a fragata Affonso, em 1851. Sendo em 1846 o naufrágio do navio francês L’Oriental, na Barra do Açu, bem conhecido devido à morte do Conde Grillenzoni de Madena e pela repercussão do leilão das suas mercadorias recuperadas e estocadas em São João da Barra.

Outro naufrágio de ampla repercussão foi o do vapor Hermes, que possuía 94 pessoas a bordo, dentre eles o romancista brasileiro Manuel Antônio de Almeida, que não sobreviveu. Este Naufrágio acarretou na morte de 40 pessoas e sete escravos, tendo sua causa para tal fatalidade uma colisão do vapor nos recifes ao largo de Macaé em 1861. O local onde o navio colidiu acabou recebendo o nome de Pedra do Hermes.

Já o maior vapor que naufragou pela nossa região litorânea foi o Goytacaz, que fazia linha Rio de Janeiro – Imbetiba (Macaé). Este navio media cerca de 180 pés de comprimento e 140 de largura, sua máquina à baixa pressão tinha força de 650 cavalos. Possuía dois salões, tinha camarotes para 40 passageiros a ré e acomodação para 300 passageiros à proa. Sua fabricação foi nos estaleiros da Inglaterra em 1884. Sendo sua última e fatídica viagem em 22 de novembro de 1887. Partiu do Rio de Janeiro, às quatro horas da tarde, sob o comando do capitão Nelson Rodrigues da Cunha, tendo como mestre Joaquim Soares e maquinistas Agostinho Gervásio de Souza e Martim Caetano. Havia também 21 marinheiros auxiliares. Ao passar pela Ilha dos Franceses, às onze horas da noite, naufragou, acarretando a morte de 14 tripulantes.

Mapa cedido do acervo de André Pinto, datado de 1767, denominado “Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro”, feito por ordem do Capitão General e Vice Rei do Estado do Brasil, por Manoel Vieira Leão, Sargento Mor e Governador da Fortaleza do Castelo de São Sebastião da cidade do Rio de Janeiro, mostra a curvatura do Cabo de São Tomé e seus bancos de areia

Entre os que se salvaram estava o poeta e professor Mario fortuna, irmão mais velho do jornalista Sílvio Fontoura, fundador do Jornal “A Notícia”. O historiador Hervê Salgado Rodrigues, que teve contato direto com tal professor, relata o depoimento deste sobrevivente que se agarrou ao mastro do navio e ouvia os gritos de socorro por todos os lados até o dia amanhecer. O conhecido usineiro João Nunes de Carvalho, proprietário da Usina do Limão, se encontrava no porto de Imbetiba à espera do novo maquinário para sua usina, acabou contribuindo com auxílio aos sobreviventes deste naufrágio, mesmo tendo um enorme prejuízo, pois todo maquinário de moderna escala para época afundou junto com o navio.

A pergunta suscitada após a relação destes naufrágios é: afinal, qual a causa de tantos naufrágios em nossa região? Claro que cada naufrágio possui uma causa específica! No entanto, o mapa cedido do acervo de André Pinto, datado de 1767, denominado “Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro” feito por ordem do Capitão General e Vice Rei do Estado do Brasil, por Manoel Vieira Leão, Sargento Mor e Governador da Fortaleza do Castelo de São Sebastião da cidade do Rio de Janeiro, mostra bem a curvatura do Cabo de São Tomé, onde há perigosos bancos de areia, suposta causa para muitos naufrágios, mas nem todos. Ainda é preciso mergulhar literalmente neste assunto e quem sabe descobrir essas atrações subaquáticas.

Em busca desse tesouro de ferrugem estão alguns piratas modernos — pesquisadores que querem mapear tais naufrágios. O inventário pode ser usado como um importante mecanismo de proteção do patrimônio subaquático de nossa região, pois um naufrágio guarda em seus vestígios um pouco da história do navio e de sua tripulação, um charme irresistível de mistério para arqueólogos e historiadores.

Graziela Escocard – Historiadora
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Cel.: (22) 99939-1853

Fonte: Terceira Via