PANDEMIA| De novo. De novo. E de novo.

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Vacina contra coronavírus

O jornalismo profissional – com as escusas ao leitor pela redundância, mas cuja ênfase em ‘profissional’ justifica-se para separar jornalismo do que é postado em redes sociais (e até mesmo alguns blogs que, a despeito de amparados pela liberdade de expressão, não ultrapassam o amadorismo descuidado) – guarda, em seu vasto leque de ofício, entre outras, a prerrogativa de dar a notícia, que é a comunicação do fato; de interpretá-la, que é a qualificação da notícia através da explicação do fato; e de opinar, que é o ponto de vista que tem como alvo o interesse público.

Acrescente-se, não se trata apenas de um direito da imprensa e tampouco se confunde com o sentido de privilégio. Trata-se, acima de tudo, de um dever que se coloca inafastável sobre os ombros dos veículos de comunicação de divulgar os fatos que são do interesse da população.

Mas, seja como for, há de exclamar o leitor, ao deparar-se com esta página, um sonoro “De novo…!”, visto que semana passada 70% do espaço foi ocupado com o mesmo tema que, por seu turno, abrigara uma espécie de reunião de matérias sobre a pandemia do novo coronavírus, atraso e erros no enfrentamento da doença, negacionismo, politização do que é pertinente à ciência, sistema de saúde falho e, o que não diz respeito a governos ou autoridades sanitárias, a absurda falta de educação de fatia considerável da população que insiste no comportamento irresponsável de promover aglomerações e não usar a máscara de proteção.

A justificativa está no fato de que, afora observância de algumas das ‘tarefas’ do jornalismo já enumeradas, é mister da atividade orientar o leitor e o público em geral no interesse do bem comum.

Assente-se, não se trata de orientação do espaço e de seu titular – que consistiria em iniciativa prepotente e arrogante. Mas, antes, o de divulgar recomendação preconizada pelos centros de estudos de infectologia e de epidemiologia, pelos sanitaristas, pelos médicos, e pela ciência como um todo, que simplesmente não foi ouvida quando alertou que o não cumprimento das medidas restritivas e o alheamento aos protocolos que cada um deveria seguir durante uma pandemia resultaria em novo surto da doença, em aceleração do contágio e, consequentemente, num aumento doloroso e catastrófico do número de casos de infectados e de óbitos. Isto posto, é que se está vendo.

O que resta fazer a não ser insistir, e insistir, e insistir de novo, batendo na mesma tecla de que, após quase 10 meses de pandemia, o risco de uma segunda onda (para muitos já confirmada) bate à porta e a encontra semiaberta, sem proteção, a convidar sua nefasta entrada?

Devemos – em outra interrogação – apenas cruzar os braços ante o negacionismo do presidente Bolsonaro, que já preocupa, inclusive, os assessores do próprio Planalto, tendo em vista “a demora do Ministério da Saúde em anunciar um plano de imunização e uma estratégia definitiva em relação às vacinas” – como alertou O Globo?

Os números não mentem. Se o Brasil caiu de mil e poucos óbitos por dia para 350/400, na última semana registrou entre 700/800, com mais de 40 mil casos confirmados na média móvel – maior marca desde agosto.

De forma estarrecedora, chegamos ao ponto do Supremo Tribunal Federal (STF) ter que se manifestar no sentido de que o governo apresente um plano de combate à doença e de vacinação contra o novo coronavírus. Ora, não deveria ser o ‘normal’, mas se faz necessária a presença do Corte Suprema ante a paralização do governo diante tão grave situação.

Resta claro, por outro lado, que a ausência do governo frente a maior pandemia dos últimos 100 anos, muito embora grave, não dá causa ao pior cenário. Este fica por conta de grande parte da população que descumpre as normas de restrição, que provoca aglomeração, que lota as praias, que vai a baladas e não usa máscara.

Não dá mais para tratar com ‘recomendações’ o que precisa ser punido com rigor. Para época de exceção, medidas de exceção. Não basta multar quem descumpre a recomendações. A casa noturna que abriga festas clandestinas tem que ser fechada. As pessoas que promovem aglomeração devem ser autuadas e presas. Quem não usa máscara, também tem que ser preso. Não há meio termo: ou se toma medidas implacáveis, ou o Brasil paga a conta com mortes. Ou melhor, inocentes pagam a conta.

– Para não falar que a aceleração meteórica do vírus pode comprometer as vendas de Natal, o verão está a 25 dias. É dizer: se em janeiro a situação não estiver controlada, talvez seja necessário fechar as praias em plena temporada.

E aí? Como vão sobreviver os hotéis, restaurantes, bares, entretenimento, transporte… enfim, o setor de serviços em geral, cujo faturamento está na temporada de veraneio?

E os empregos formais típicos da época, que disponibilizam trabalho para garçons, recepcionistas, atendentes, cozinheiras, arrumadeiras e tantos outros? E os informais, basicamente os vendedores que circulam nas praias vendendo todo tipo de produtos?

O Brasil não tem como esperar mais. São 10 meses. Ou se toma providências enérgicas imediatas, ou entramos 2021 tendo que encarar a fase mais dura da pandemia.

A curto prazo não se pode apostar na vacina. Pode chegar em janeiro – o que é improvável – ou em março. Mas até que seja distribuída, é inaceitável que se cruze os braços ante a irresponsabilidade dos que não cumprem as normas sanitárias e as pessoas que continuam perdendo a vida.

Fonte: Terceira Via